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MEL: DOCE, ÁCIDO E ATÉ COM SABOR DE QUEIJO

MEL: DOCE, ÁCIDO E ATÉ COM SABOR DE QUEIJO
Redação Rio Gourmet
Por: Redação Rio Gourmet
Dia 02/03/2020 17h17

Conheça os 12 tipos de mel que existem no Brasil.

Mel é um alimento benéfico para a saúde e, ao mesmo tempo, delicioso. E o Brasil é um dos melhores lugares do mundo para cultivar e provar os mais diferentes méis (ou meles!).

Cristiano Menezes, pesquisador da Embrapa e conselheiro da associação A.B.E.L.H.A., que estuda abelhas, conta que existem dezenas de tipos de mel produzidos no Brasil, sendo muitos deles encontrados apenas por aqui. “Além da abelha africanizada, a mais comum do mundo, temos 240 espécies de abelhas nativas que produzem mel e elas só existem por aqui. Temos mel exclusivo e com caráter regionalizado”, contou Menezes.

Em volume, o mel silvestre (produzido pela abelha africanizada a partir de uma mistura de flores em área de vegetação natural) é o mais comum. O Brasil, porém, tem outros tipos premiados de mel. “Os tipos mais valorizados são o mel de laranjeira, da flor de laranjeira, o de eucalipto e o mel de cipó-uva”, diz.

Além disso, o País conta com tipos únicos de mel que vêm ganhando destaque na alta gastronomia. O mel de abelha Borá, por exemplo, é um dos mais excêntricos. “Ele é um mel curioso pois tem um sabor salgado e lembra queijo. É uma característica tão diferente que ele tem sido usado em receitas de chefs renomados”, conta o pesquisador.

Apesar de o Brasil ter uma infinidade de tipos de mel ― que podem variar de acordo com a região, vegetação e espécies de abelhas ―, Menezes lista os 12 mais comuns, utilizados para o consumo, veja:

MEL: DOCE, ÁCIDO E ATÉ COM SABOR DE QUEIJO

Mel da abelha Apis mellifera (abelha africanizada)

Laranjeira: Mel claro oriundo de flores de laranjeiras. Ele é muito valorizado pelos consumidores brasileiros devido ao aroma e coloração. É produzido principalmente em São Paulo e Minas Gerais.

Eucalipto: Mel de flores de eucalipto. Com aparência mais escura e rico em minerais, ele é geralmente utilizado como expectorante. Produzido nas regiões Sul e Sudeste.

Cipó-uva: Mel mais transparente, costuma agradar os consumidores por sua coloração e aroma, predominantemente produzido em áreas de Cerrado, em Minas Gerais.

Bracatinga: Mel não floral. Possui sabor peculiar, tem aparência muito escura e é rico em minerais. Ele é produzido a partir de cochonilhas, insetos sugadores que secretam um líquido açucarado no tronco da Bracatinga, árvore nativa das regiões mais frias do Sul do Brasil.

Mel de abelhas sem ferrão (nativas do Brasil)

Segundo Menezes, as abelhas sem ferrão são o grande diferencial do Brasil. Elas costumam visitar diversos tipos de plantas ao mesmo tempo, por isso, a característica do mel é influenciada mais pelo tipo de abelha produtora do que pela espécie de planta visitada.

Uruçu: Mel claro e amarelado, levemente ácido, produzido no Nordeste brasileiro;

Uruçu-amarela: Mel muito ácido, produzido no Pará, considerado o melhor mel do Brasil no concurso de mel organizado pela Ame-Rio nesse ano; MEL: DOCE, ÁCIDO E ATÉ COM SABOR DE QUEIJO

Mandaçaia: Mel claro, às vezes transparente, não é ácido, com sabor característico do material de construção usado nas colônias, produzido no Sul e Sudeste;

Jataí: Mel claro, levemente ácido, muito usado na cultura popular por suas propriedades medicinais, produzido no Brasil todo;

Tiúba ou uruçu cinzenta: Mel muito doce, geralmente transparente, produzido no Maranhão e Pará;

Borá: Mel bastante peculiar, é levemente salgado e possui aroma que lembra o sabor de queijo, ótimo para temperar saladas. Produzido na região Sudeste;

Jandaíra: Mel levemente ácido, usado na cultura nordestina como produto medicinal, produzido na região do Semi-árido do Rio Grande do Norte;

Mandaguari: Mel levemente amargo e mais viscoso, produzido no Sul e Sudeste;


A produção de mel e o agrotóxico no Brasil

Os Estados Unidos e a China ainda lideram o mercado de mel no mundo, mas o Brasil ganha no quesito valor agregado por sua biodiversidade.

Além dos tipos de mel, o País é o único do mundo que consegue produzir mel orgânico em grande quantidade. “Temos muitas áreas preservadas e, por esse isolamento, é possível produzir mel orgânico com uma certa facilidade”, conta o pesquisador.

Apesar das facilidades, os produtores brasileiros ainda enfrentam entraves. “O volume de produção é alto [cerca de 20 quilos por colmeia por ano], mas temos o potencial de triplicar este número com manejos muito simples, aplicando tecnologias que já estão disponíveis”, diz Cristiano.

Outra questão que preocupa a associação e apicultores de todo o Brasil é o uso irresponsável de pesticidas, que matam milhões de abelhas todos os meses. Em 2019, por exemplo, uma investigação em Santa Catarina revelou que mais de 50 milhões de abelhas foram mortas envenenadas por agrotóxicos em apenas um mês.

Segundo a BBC, os testes apontaram que o inseticida fipronil, usado em lavouras de soja na região e que é proibido em países como Uruguai, é letal para abelhas.

“Em volume total produzido, a gente não vê uma queda significativa de produção. Contudo, sabemos que já existe prejuízo local, sobretudo em regiões do Sul e em São Paulo”, diz Menezes.

Ele acrescenta que existem poucos dados oficiais, o que dificulta a identificar problemas relacionados aos agrotóxicos. “Não sabemos ao certo quanto a gente está perdendo, justamente por falta de profissionalismo da apicultura. Os casos [de mortes de abelhas por agrotóxicos] são pulverizados pelo País, então a gente nem fica sabendo. Precisamos ter mais dados sobre a situação real”, critica.

MEL: DOCE, ÁCIDO E ATÉ COM SABOR DE QUEIJO

A grande preocupação, segundo o pesquisador da Embrapa, está relacionada ao mel orgânico. Com o risco de contaminação por agrotóxico, este produto ― que é justamente o mais valorizado no exterior ― pode sofrer boicote e ser banido em países que importam o mel. “Já temos alguns relatos de méis embargados por contaminação por agrotóxico”, disse.

Para aumentar a produção e elevar o Brasil a um dos grandes exportadores de mel do mundo, é preciso ir além da tecnologia, mas também investir em pesquisa e preservação da biodiversidade do Brasil.

“Nossa maior produção ainda vem de uma única espécie de abelha, que o mundo inteiro tem. Mesmo que seja puro e orgânico, a gente está produzindo a mesma coisa, o que barateia o nosso mel”, disse.

“O potencial do Brasil é ter produto de valor agregado e investir em méis de nossa biodiversidade, que só nós temos. É mais inteligente voltar nossas energias para produzir estes tipos, só que em menor escala, do que aumentar a produção de um mel comum. Se o mundo comprar o mel de nossas abelhas, estará ajudando os apicultores que conservam nossa biodiversidade.”

Se você ficou interessado em provar um mel brasileiro, Cristiano afirma que existem muitos produtores locais que vendem seus produtos artesanais na internet. Outros méis diferenciados também podem ser encontrados em mercados “gourmet”, como Pão de Açúcar e Santa Luiza.

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