Revista RioGourmet - O Guia Gastronômico da Cidade

Aguarde, carregando...

Na cozinha com Rodrigo Hilbert

Na cozinha com Rodrigo Hilbert
Redação Rio Gourmet
Por: Redação Rio Gourmet
Dia 23/09/2020 08h05

Apresentador mostra sua paixão pela culinária e como tem sido conciliar trabalho e família neste período de pandemia

Nem mesmo a pandemia foi capaz de parar este homem! Rodrigo Hilbert, hoje aos 40 anos de idade, ostenta bom humor e simplicidade obtendo sucesso em tudo que faz. Além de ser um cara super família, o apresentador faz questão de mostrar que mesmo em período de pandemia, é possível utilizar a criatividade para fugir do tédio, dando vez à inovação.

Com sucesso absoluto, as novas temporadas de seu programa gastronômico “Tempero de Família” no GNT, tem sido campeão de audiência no canal desde sua estréia em 2012.  Em todas as edições, Rodrigo faz questão de mostrar ao seu público como é fácil e gostoso preparar pratos simples e caseiros utilizando alimentos frescos – “Nunca gostei de sair para procurar restaurantes. A comida mais fresca que você pode encontrar é na sua casa, você realmente sabe o alimento que está consumindo, 100% de certeza” – diz o catarinense, especialista em “comfort food”.  Seu estilo de “o homem perfeito” ficou conhecido por todo o Brasil, através de seus trabalhos na TV, chegando a ser registrado em livro (As Deliciosas Receitas do Tempero de Família, Editora Globo, 2014).

Conhecido por sua generosidade e carisma, Hilbert caiu nas graças do povo, mesmo antes de se tornar apresentador. Como ator, carrega em sua bagagem o mérito de ter realizado dez novelas e três filmes, até que seus dotes culinários deixaram de ter na época em que começou cozinhar, apenas Fernanda Lima e os gêmeos como “cobaias” de seus pratos. Hoje, com o nascimento de sua caçula Maria Manoela e do casal de gêmeos, Rodrigo e Fernanda Lima, agitam as redes sociais, mostrando o quanto é importante o convívio familiar.

A seguir, o apresentador fala sobre seus points preferidos no Estado natal, a rotina em família e suas outras paixões, além da culinária.

Na cozinha com Rodrigo Hilbert

– Como se deu a evolução da carreira de ator até chegar a um programa de gastronomia?

Rodrigo – Tenho essa coisa inquieta, né? Estava lá fazendo novela, tudo certo, tranquilo, contratado pela Globo, maravilhoso, estava em Fina Estampa e tinham me chamado para outra novela. Esse projeto aconteceu de surpresa. Sempre cozinhei, desde moleque. Minha mãe trabalhava fora e tinha que alimentar a família. Chegava em casa da aula (Suzete era professora e lecionava em três turnos), preparava a comida, deixava pré-pronta. No dia seguinte, eu ou meu irmão tínhamos que finalizar a comida.

Como eu era mais novo e ele mandava em mim, sobrava para mim. Aí aprendi muita coisa. Em São Paulo eu cozinhava muito para a galera. Quando eu e a Fernanda ficamos juntos, também sempre cozinhei para nós. Um dia eu estava fazendo uma galinha ensopada com macarronada e salada de batata, que é meu prato predileto e até hoje tem isso todos os domingos na casa da minha mãe,  Fernanda tinha chamado uma amiga dela para gravar, era a diretora e produtora Gisele Matta.

Ela chegou lá em casa, a gente começou a brincar, zoar, ela pegou uma escada, amarrou uma câmera em cima e com outra na mão andava atrás de mim, eu ali fazendo almoço. Ela editou o vídeo, botou música, ficou muito maneiro. A Gi mandou para um amigo no GNT, o canal adorou e foi assim que começou. Fizemos a primeira temporada no Sul, ela foi a diretora. Aí teve uma história trágica. Gisele estava saindo aqui de casa um dia (em abril de 2013) e foi atropelada (estava de bicicleta) na esquina e morreu. Foi o maior baque na nossa vida, uma pessoa maravilhosa, e nem chegou a ver o sucesso do programa. Ela que me descobriu. Porque desde que as crianças nasceram, a gente não tinha empregada de noite, aos finais de semana, e aí, como é que faz? Não gosto de sair, então era tudo comigo, inventava pratos e mais pratos. Eu mexo com a Fernanda dizendo que ela voltou a comer muito bem comigo, eu provoco, ela diz “você tá louco, você acha que eu não comia?”, brincando. Sem falar que ela era vegetariana até a gravidez. Quando voltou a comer churrasco, eu comemorei, “ô, que beleza”, era todo final de semana.

 Na cozinha com Rodrigo Hilbert – Você fala muito da qualidade de vida das pessoas no interior. Isso se deve à sua criação?

 Rodrigo – Sim, acho que tem muito isso em Santa Catarina e no Rio Grande do Sul mesmo. Pergunta para essas pessoas se elas querem sair destes lugares e ir para cidades grandes. Não, hoje as pessoas querem ficar lá, manter a vida que têm. Cada vez mais estou me interiorizando, cada vez mais voltando para as minhas raízes, tenho meu sitiozinho (em Teresópolis), minha plantação, vivo na cidade grande porque, óbvio, gosto, sou apaixonado pelo Rio de Janeiro, meu escritório é aqui. Mas é muito importante na vida de uma pessoa.

Agora no verão levei as crianças para a casa da minha tia, em Ipuã, uma praia de Laguna que fica do lado do Farol de Santa Marta. Ficamos 15 dias ali, foi muito legal para repor as energias. Olhava para meus filhos correndo no chão de terra, brincando até tarde da noite, sem eu estar preocupado, sem ficar olhando, na rua de casa, com outras crianças na praia, jogando bola na estrada, os carros que vinham tinham que parar para eles continuarem jogando bola. Nossa isso é impagável. E eu assim: “vambora?”. E eles: “Não, pai, vamos ficar mais um pouquinho”. De lá, fomos para Atlântida/RS, já era mais movimentado, mas eles curtiram muito. A vó deles (dona Tereza, mãe de Fernanda) é um moleque, adora brincar, comprou duas bicicletas, andaram de um lado para outro. Essa coisa de interior eles tiveram um certo contato mesmo agora. Minha infância foi inteira assim, como eles passaram essas duas semanas.

–  Como foi sair do interior para viver a cidade grande? Isso lhe gerou muito estranhamento?

Rodrigo – Nossa, foi muito difícil. No dia em que fui embora, minha família inteira lá na porta da casa do meu vô, me dando tchau, e eu garotão adolescente forte não queria chorar. Entrei no carro do meu primo e depois comecei a chorar igual a um louco. Desespero. Pensava: “O que estou fazendo, não sei quem vou encontrar”. Na rodoviária, peguei um ônibus, 13 horas depois estava em São Paulo.

“Cheguei, e agora, meu Deus do céu?”. Eu era um menino do interior, da roça, o lugar mais longe que eu tinha ido tinha sido Florianópolis até os 18 anos. Fui cair na rodoviária do Tietê, com três malas, uma de roupa de cama, outra de comida, uma de roupas. Minha mãe mandou queijo, salame, pão de milho, tudo da colônia. Não sabia o que teria para comer lá, né? Cheguei na agência e não tinha lugar para onde ir. Dormi escondido lá nos primeiros dias. Depois com outros modelos conseguimos alugar um apartamento, mas era vazio, não tinha nada. Minha cama era um monte de papelão um em cima do outro para ficar fofinho. Foi assim por uns 15 dias até conseguir comprar colchão, geladeira, fogão. Éramos quatro modelos chegados do Sul.

Começamos a fazer uns testes, pegar trabalhos, pintou um dinheiro, mas o dinheiro que eu achava que iria aparecer não aparecia, porque descontavam a grana do carro, do teste, do book, não sobrava quase nada. A gente vai vivendo e aprendendo. Graças a Deus passei por tudo isso, foi o que me ajudou a crescer e me fez saber o que eu queria fazer da vida. Procurei as pessoas certas pra estar do meu lado e me distanciei das erradas. Na cidade grande tem muita gente boa e muita gente do mal. Desde 1998, meus amigos me acompanham. Minhas amizades são longas.

– Como você equilibra o hábito dos lanches e da alta gastronomia? Prefere o meio termo?

Rodrigo – Minha forma de fazer é a gastronomia mais tradicional, mas eu gosto muito da alta gastronomia. Adoro sentir sabores sem ter a cara do alimento. Isso tem muito lá no Maní, o restaurante da Fernanda (cuja chef é a gaúcha Helena Rizzo, amiga de Fernanda). Vou te dar exemplo de um prato: eles têm uma feijoada lá que é um pratinho pequeno, são umas esferas de feijão, você bota na boca e sente o gosto de uma feijoada completa. Meu Deus, como é que conseguem fazer isso?

Sou fã dessas pessoas, porque não consigo, não estudei para isso. Mas acho lindo. Outra coisa é a urgência do dia a dia. Como você vai se alimentar bem tendo que acordar às 6h da manhã, mandar os filhos para a escola, ir para o trabalho, não voltar para casa, comer na rua, chegar em casa de noite, fazer janta para os filhos, dormir e no outro dia a mesma rotina? É muito difícil, por isso que as pessoas vão para o lanche, principalmente aqui no Rio. É o exemplo da cidade que vive de lanche. As pessoas saem da praia e passam ali no açaí, a gente chama tudo aqui de açaí, em cada esquina tem uma casa de sucos. Isso você não tem muito aí no Rio Grande do Sul, né?

Na cozinha com Rodrigo Hilbert  – A que fatores você credita o sucesso do programa?

Rodrigo – Não saberia fazer de outra forma. Acho que é porque as pessoas se identificam muito. Dizem “adoro quando você lambe o dedo, adoro quando você bota o dedo na comida, a tua mãe te dando bronca…”. Muita gente voltou a não ter medo de cozinhar. Porque cozinhar virou um medo. A receita tem que ser tal, a medida tem que ser tal… A cara dos programas de culinária também mudou. Jamie Oliver vem há anos fazendo isso. Todo mundo meio que indo para o caminho dele. Ontem ainda eu estava rindo que ele coça a cabeça, quase tira uma catota do nariz (risos). Me inspiro muito nele, e ele inspirou muita gente. Até os programas mais chiques estão mais largados. A Nigella também faz a mesma coisa.

 – Você falou da bronca da tua mãe. Como é sua relação com ela?

Rodrigo – Nasci dois meses depois que minha irmã faleceu (a primogênita da família morreu aos 13 anos, de leucemia). Meu pai sofreu muito com isso e se afastou da família um pouco. Minha mãe me botou embaixo do braço e aí foi meio “ninguém toca”. Virou uma leoa na selva com um filho que ninguém iria tirar dela de jeito nenhum. Me protegeu muito a vida inteira, e eu sempre do lado dela. Minha criação masculina é mais por parte do meu avô, e a feminina pela minha mãe e minha vó. E o que elas faziam? Cozinha o tempo inteiro. Hoje minhas paixões derivam disso. Meu avô (seu Aine, falecido em 2008, aos 86anos, ex-prefeito de Orleans nos anos 70) era serralheiro e torneiro mecânico, uma lenda na cidade, mestre na arte de moldar ferros. É uma coisa muito bruta e difícil, mas ele tinha a delicadeza de mexer com ferro. Minha primeira profissão foi soldador, aprendi aos 12 anos. Com 14 anos não queria sair de casa com meus amigos para ficar com a minha mãe, porque ela era minha protetora e eu não conseguia deixá-la sozinha, tinha medo. Depois de grande, né, fui fazer muita terapia para poder resolver essas questões, hoje está tudo certo (risos). Tenho uma oficina no meu sítio, com solda e torno, faço várias peças de ferro, brinco, monto, desmonto, quebro, sou meio engenhosozinho. Nada em casa eu chamo alguém pra consertar, tudo quem arruma sou eu acredite.

 – Gosta de cozinhar muito, e obviamente gosta também de comer muito?

Rodrigo – Olha, sou apaixonado por vôlei de praia e ciclismo. Há dois anos comecei a participar de competições e tenho um treinador. Vou fazer a Brasil Ride, a segunda prova mais difícil do mundo. São sete dias na Chapada Diamantina, 600 quilômetros. Treino todos os dias, saio às 6h de casa, faço meu treino na Mesa do Imperador, vou até o Cristo, pedalo e chego a casa 8h30min, 9h, tomo café com a família. Gasto muita energia com isso, então como muito para me manter treinando. Isso é unir o útil ao agradável. Para mim nunca é um problema comer muito, é um pedido do meu treinador. Opa, então deixa comigo (risos). O problema é quando se canaliza isso da ansiedade para o lado da comida. Todo mundo é ansioso, não tem quem não seja. Trato minha ansiedade com ciclismo, ioga, esporte. Meu terapeuta diz que ansiedade não faz mal a ninguém. Quem não tem ansiedade é que tem problema. Mas tem gente que quebra a ansiedade inteira em cinco barras de chocolate, em três pratões de comida ou come o dia inteiro, aí vem um excesso que começa a fazer mal para sua saúde. Se você não fizer nenhum tipo de esporte você vai comer mais sempre. Experimenta acordar amanhã e fazer um exercício de manhã e ir almoçar. Vai ser de uma forma bem diferente, com mais consciência, comparado a você acordar e não fazer nada.

 Na cozinha com Rodrigo Hilbert – Como é a rotina de vocês em família, agora que ela cresceu?

Rodrigo – A gente mora sozinho, eu, Fernanda, os dois gêmeos e agora a pequena Maria. Aí no Sul é maravilhoso, porque se tem a família sempre perto, né? Às vezes pensam “Nossa, como eu queria a minha mãe morando aqui no apartamento do lado, na esquina, minha vó, minha tia, qualquer parente aqui perto. Tem que sair? Deixa as crianças na casa de um parente. No Sul tem muito isso, fui criado dessa forma. A mãe tem que ir para algum lugar? Beleza, casa da vó. Ah, tem que ir não sei onde? Beleza, casa da tia. Aqui a gente não tem isso.

– Como você e a Fernanda se vêem no papel de pais?

Rodrigo – Fernanda é maravilhosa como mãe. Eu sou manteiga derretida, ela é mais séria, segura a onda, mas muito amorosa. Eu tive uma criação mais amolecida, minha mãe me protegeu muito. O pai da Fê (Cleomar) era mais tipo “Ah, é? Quer ir? Então vai, vai tomar porrada na cabeça, vai, vai lá e faz isso aí”(risos). Ela me ajudou a ser mais assim também. É uma mãe e mulher maravilhosa, sou fã número 1, apaixonado, não tenho nem o que falar dela. Esses dias me pediram: “Fala aí da Fernanda”, e eu respondi: “Vou falar o que aí, irmão, vou ficar falando da minha mulher por aí? Eu, hein?” (risos). Costumo agradecer muito a ela. Me deu um rumo na vida, né? Foi um exemplo de vida para mim. Pago um pau para ela impressionante, não vejo ninguém no mercado tão dedicado como ela a tudo que faz. Sou 10% do que ela é e já basta.

 

 

Veja também:

Confira mais artigos relacionados e obtenha ainda mais dicas do mundo gastronômico.